Aniello Greco
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A quântica é mecânica

“Se você pensa que entendeu a mecânica quântica, você não entendeu a mecânica quântica”, já disse uma vez Richard Feynman, um dos mais importante físicos do século XX.

 

Mas estranhamente o que não falta hoje são pessoas que, mesmo sem nunca estudar como se resolve uma equação diferencial, afirma não apenas que entende de física quântica, mas que consegue fazer que você entenda como a física quântica pode mudar a sua vida.

 

Todas estas coisas quânticas que você vê por aí, de cura quântica a coach quântico, ou como a física quântica comprova que a mente altera a realidade, toda esta espiritualidade quânticaé enganação.

 

A primeira dica está no próprio nome. Apesar de física quântica não ser um termo errado, o nome mais correto é MECÂNICA quântica. Se você lembrar das duas aulas de ensino médio (ou 2° grau, como era na minha época), mecânica é o estudo do movimento. A mecânica quântica é basicamente o estudo do movimento das menores partículas do mundo físico. E apesar da mecânica quântica estar repleta de conceitos aparentemente absurdos e misteriosos, ainda assim é apenas o estudo do movimento de partículas.

 

Entendendo que a quântica é mecânica, podemos então criar duas regras simples para leigos, que não entendem de quântica, consigamos separar o que é ciência e o que é trambique.

 

1- se não está falando de partículas subatômicas, quase certamente não é mecânica quântica.

2- para quase todos os efeitos perceptíveis no nosso cotidiano, a mecânica quântica é idêntica a física clássica.

 

É bastante comum místicos usarem termos que estão presentes no jargão técnico da física, mas em sentidos bastante diferentes. Energia, vibração, frequência, força são termos com significados bem precisos e objetivos na física, mas também usados de forma mais abstrata e imprecisa pelos charlatões. Máximas como “tudo é energia”, ou “tudo tem a sua vibração” são afirmações não muito exatas na física, e interpretadas de forma totalmente diferente em um contexto místico. Citando um exemplo bem simples, negativo e positivo para um físico é um conceito numérico, e não algo ligado a bom e ruim. A carga negativa do elétron não vai piorar nada, nem a carga positiva do próton.

 

Para ir um pouco além destes princípios básicos, vale entender qual é a origem enganosa da “espiritualidade quântica”. Ela se apoia erros de interpretação de três problemas físicos reais.

 

A equivalência entre energia e matéria

 

Apesar de não ser exatamente um assunto quântico, e sim parte da Relatividade de Einstein, a equivalência entre matéria e energia é muito usada por palestrantes e vendedores de curas quânticas e afins. A teoria da relatividade nos ensina que matéria é energia, e energia é matéria. Isto é algo comprovado repetidamente pelas usinas e bombas nucleares, bem como na luz das estrelas, que são nada mais que usinas nucleares naturais.

 

Mas muita gente fala que matéria é NA VERDADE energia, e que a matéria é ilusória. Isto é uma distorção. A melhor forma de entender a equivalência entre matéria e energia tratar os dois conceitos como manifestações de um mesmo fenômeno. Algo similar a como entendemos magnetismo e eletricidade. Parecem coisas bem diferentes mas na realidade partes de um mesmo fenômeno, o eletromagnetismo.

 

Podemos converter matéria em energia, e energia em matéria (só é caro e trabalhoso). E podemos medir quanta energia uma bola de basquete tem, ou quanta massa um raio de luz “pesa” (quase nada, mas é quase).

 

Importante ainda destacar que energia é um conceito físico difícil de definir em palavras cotidianas, sem entrar em um jargão técnico (assim como matéria), mas que conhecemos bem o suficiente para medir, manipular, detectar, etc. Só para citar um exemplo, quando você faz um cálculo das calorias presentes no seu almoço, está calculando quanto de energia seu corpo consegue extrair do alimento. Não é algo misterioso, intangível ou imaterial. É um conceito mecânico.

 

 

O experimento da dupla fenda

 

O segundo pilar da farsa quântica é o experimento da dupla fenda. Vou tentar descrever o experimento da maneira menos técnica possível. O experimento se faz em três estágios.

 

Primeiro disparamos um feixe de elétrons através de uma fenda, um buraco. Fazendo isto, os elétrons seguem uma trajetória igual a esperada de uma partícula, um corpo físico.

 

Depois disparamos um feixe de elétrons idêntico, só que agora através de duas fendas. Estranhamente agora os elétrons seguem um comportamento de onda, se divide entre as duas fendas e geram o que chamamos de padrão de interferência. Estranho? Você ainda não viu a parte mais divertida.

 

O terceiro estágio é colocar em cada uma das duas fendas um detector de elétrons, de forma que agora conseguimos saber em qual das fendas cada elétron irá atravessar. E… Surpresa! Os elétrons voltam a se comportar como partículas. É o que chamamos de dualidade onda-partícula.

 

Explicando rápido, partículas são como pequenas bolas, que seguem trajetórias lineares, com posição e velocidade pontuais. Já uma onda tem a sua frequência, seu comprimento de onda, espalhando-se no espaço. Pense como ondas na superfície da água. O movimento de uma onda pode ser descrito matematicamente pelo que chamamos de equação de onda, ou função de onda.

 

Ondas e partículas são coisas bem diferentes. Mas os elétrons as vezes se comportam como partículas, as vezes como ondas. É daí, inclusive, que os místicos gostam de falar que tudo tem uma vibração, uma frequência. Mais um termo comumente distorcido.

 

Mas o que que é mais estranho, além do elétron as vezes ser onda, as vezes ser partículas, isto parece ocorrer dependendo da forma como observamos os elétrons. O que nos leva ao último conceito. Prometo, já está acabando.

 

O problema da medida

 

O que sabemos até agora? Que elétrons (e na verdade, qualquer partícula-onda) se comportam as vezes como partícula, as vezes como onda, e isto ocorre dependendo de como observamos o fenômeno. Quando montamos nosso experimento de modo que não conseguimos saber a trajetória exata do que estamos observando, o fenômeno quântico se comporta como onda. Mas se escolhemos medir a trajetória exata, o fenômeno se comporta como partícula.

 

Outra forma de descrever isto é falar que antes da observação o fenômeno a ser observado se comporta como onda, mas depois da observação, se comporta como partícula. Se resolvermos descrever todo o fenômeno como partículas, isto significaria que antes da medida o elétron teria várias possibilidades de posições e trajetórias, e depois da observação apenas uma possibilidade, definida aleatoriamente. É o que chamamos de colapso da função de onda.

 

A forma mais popular de imaginar isto é colocar um gato dentro de uma caixa, com um artefacto letal quântico. E até alguém abrir a caixa, o gato estaria em um estado indefinido de vida ou morte. Mas ao abrir a caixa, só observamos um destes estados. Não se preocupe, é um experimento mental. Nenhum gato foi ferido por físicos teóricos.

 

Há várias interpretações possíveis do que isto significa. Mas todas elas tratam a medida, o observador, como o detector colocado na fenda. Apesar de não conseguirmos saber exatamente o que ocorre no colapso da função de onda, sabemos que isto ocorre no momento da medida. No momento em que abrimos a caixa.

 

Apenas na comunidade dos “espiritualistas quânticos” que há a interpretação de que o que gera a o colapso é a consciência do observador, e que o observador (nós) “escolheríamos” qual dos estados possíveis aconteceria.

 

Mas isto ignorar algo bem básico. A definição de qual o estado será observado é aleatória. É impossível prever por qual fenda o elétron irá atravessar, ou se o gato estará vivo ou morto ao abrimos a caixa.

 

Além disto, para corpos matérias do nosso cotidiano o exato oposto acontece. Se com um elétron, ou um gato, não podemos prever o que acontecerá, com trilhões de elétrons podemos calcular com altíssima precisão como o conjunto se comportará. Pois as diferentes variações de cada partícula acabam se anulando. Se eu tivesse 10 trilhões de gatos encaixotados, e 50% de chances de cada gato viver e morrer, posso prever com enorme precisão que metade dos gatos estarão vivos no final. O que significa 5 trilhões de gatos mortos, o que é de uma crueldade impensável. Os corpos físicos com que lidamos são exatamente isto, exceto pelos gatos mortos. São trilhões e trilhões de caixas fechadas que abrimos quando interagimos com elas. A quântica, no mundo cotidiano, é a física clássica.

 

Mas os místicos de plantão adoram ignorar isto e dizer que podemos definir nossa realidade se vibrarmos na frequência correta. Se formos positivos, o universo irá conspirar a nosso favor. Uma ideia que, além de não fazer o menor sentido quântico, é um tanto cruel.

 

Felizmente não precisamos convencer todos os passageiros de um avião de que as leis da aerodinâmica estão corretas. Infelizmente não adianta convencer a passageiros de um avião em queda que é possível ignorar a gravidade e escolher observar um avião flutuando até o solo. Nosso mundo macroscópico é previsível, determinado. O mundo quântico é aleatório, mas também mecânico.

 

Consciência alterando realidade é apenas pensamento mágico. É achar que mentes fortes podem moldar o universo, e quem sabe controlar o tempo, ou curar doenças com as mãos, ou transformar príncipes em sapos. Isto não é quântica, é magia.

 

O que acontece no mundo real é bem mais cruel. Se alguém está convencido que é capaz de moldar o universo a sua vontade, e pega uma doença, ou um parente morre, ou sofre um acidente, o mais provável é que ele acabe se culpando. Ele irá achar que sofre por “vibrar errado”. Uma espécie de meritocracia energética.

 

Mas quem realmente entende nossa realidade sabe que boas escolhas geram bons efeitos, mas há muita coisa além de nossa esfera de influência. Quem tem alguma dúvida disto, basta lembrar como o mundo mudou de fevereiro de 2020 para março de 2020. De repente um vírus novo surgido na China mudou a vida de 8 bilhões de pessoas.

 

E se você aceitar isto, que nossa esfera de ação é bem limitada, vai notar o quão libertador é. Faça o seu melhor para tomar as melhores escolhas. Fora isto, relaxe. Nada está sob controle. E tanto a mecânica quântica como o simples bom senso nos mostra isto.

 

Aniello Greco
Enviado por Aniello Greco em 06/07/2022
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